Fala, Romário

Eu não quero entrar no assunto “Copa” porque, sinceramente, cada um tem a sua opinião e desde o início ele já foi palco de inúmeras confusões, mas acho importante para quem se interesse, tenha paciência e queira saber um pouco mais, que leia o texto publicado pelo Romário nessa quarta-feira, após o desastre de ontem […]

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Tapas na cara: sejam muito bem-vindos

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Eu sempre fui mais criançona, mas me achava adulta desde pequenininha. Sempre lutei pela minha independência e odiava quando alguém tentava me prender, me controlar, até que encontrei uma pessoa que mesmo sem querer, fez as duas coisas indiretamente, me levando a estagnar durante muito tempo em um limbo de consciência. Eu já não sabia mais quem eu era e tudo que eu acreditava ter sido um dia foi por água abaixo. Até as palavras começaram a sumir, eu não soava mais como eu mesma, então preferia ficar calada. Foi aí que a  meninona autoconfiante virou um amontoado de migalhas e restos de inúmeras tentativas diferentes de amadurecer e tentar ser feliz.

É impressionante como com o passar do tempo percebemos como mudamos. Eu, pelo menos, me assusto com o modo como eu “cresci”, principalmente nos últimos meses. A maioria das coisas que eu prezava hoje não fazem o menor sentido, assim como algumas outras que ás vezes eu ignorava hoje regem a minha vida.

Não é que eu seja um camaleão ou nada do tipo, mas as dores, mágoas e tristezas que nós enfrentamos pelo caminho da vida nos fazem muito mais fortes, nos fazem amadurecer e por incrível que pareça, nos colocam cada vez mais próximos da verdadeira felicidade. Elas nos transformam.

Honestamente, esse papo de “não me arrependo de nada que fiz no passado” sempre me pareceu um pouco contraditório. Vejo as burradas gigantescas que cometi há alguns poucos meses atrás e fico imaginando como tudo poderia ter sido diferente se eu fosse como sou hoje, pensasse com a cabeça que tenho hoje, fizesse as escolhas que faria hoje em dia. Mas se for pensar bem, talvez sem as batidas de cara na porta, sem os tapas – e ás vezes verdadeiros socos – que levei da realidade, não seria quem sou agora e, honestamente, não poderia estar mais feliz comigo mesma.

Sabe quando você se encontra na vida e em si mesma ? Quando seus princípios, costumes e sonhos estão tão firmes em você que parecem transbordar ? Pois é, eu nunca me senti assim antes. É a primeira vez em anos que eu tenho certeza de quem sou e do que quero pra minha vida. Em pensar que a alguns meses eu sonhava o sonho do outro, vivia a vida do outro, era parte do outro …

Ás vezes me pego perguntando por que muitas vezes nos deixamos nos perder e fico tentando relembrar meus passos na tentativa de reconstituir o momento exato no passado aonde eu me tinha me esquecido. Tentando lembrar se me abandonei em alguma esquina, algum coração por aí, não sei. Quando foi que eu cometi a loucura de me desgarrar de mim mesma e decidi me agarrar em outra pessoa pra tentar ser feliz? Imagino o peso que minha carcaça sem alma e minhas expectativas junto com todas as minhas fichas deveriam ter nas costas do outro. Que loucura a minha. Ah se fosse hoje…

Se fosse hoje com certeza eu não teria feito o que fiz, dito as besteiras que disse, talvez tivesse colocado mais pontos finais ao invés de vírgulas, mais sorrisos ao invés de lágrimas, mais maturidade no lugar da infantilidade e falta de noção de uma menininha estabanada que agia por impulso e fazia tudo para agradar o outro e não a si mesma. Como é mesmo o ditado ? Eu era “mais perdida do que cego em tiroteio”. Nunca antes um ditado se encaixou tão bem a uma situação, porque além de perdida eu era cega em toda a minha ingenuidade, e olha que me considerava super resolvida, atenta e centrada… Hoje vejo que nem fazia ideia do que essas palavras realmente significariam na prática.

Olhando pra mim hoje fico então imaginando como seriam todos os anos que vivi perdida se estivesse inteira, corpo, mente e coração – junto com a maturidade. Bom, talvez não tivessem nem existido, talvez hoje eu estivesse em Massachusetts dando aulas de inglês para crianças para pagar minhas aulas de dança, sei lá, então não vamos tentar mexer no passado.

A verdade é que eu também não me arrependo. Óbvio que teria feito quase tudo diferente, mas não seria hoje tão eu e não teria as lembranças que, mesmo meio confusas e retalhadas com alguns fios de dor e frustrações, são tão … minhas. E ninguém nesse mundo vai poder roubá-las de mim. Nem as lembranças e nem o meu EU de verdade. Nunca mais nessa vida eu me perco ou me deixo pra trás em alguma calçada da vida.

Cada erro, cada lágrima, cada noite em claro chorando agarrada no meu travesseiro serviu para me ensinar. Os gritos de raiva que já dei um dia acabaram me chamando e eu vim correndo pra casa,  de volta pra minha consciência e pra minha carcaça um dia vazia. E como foi bom me reencontrar… E ainda perceber que eu voltei e voltei muito melhor do que imaginava, muito mais forte, muito mais racional e ainda assim, muito mais “amor” em essência.

Hoje olho pra trás e vejo várias Camilas, cada uma com sua peculiaridade e com seus defeitos. Alguns de fábrica, até hoje sem concerto – como a falta de jeito com algumas coisas, por exemplo, vivo tropeçando e me machucando por aí – outros, graças ao bom Deus, analisados e deixados pra trás. É como se eu tivesse passado por uma revisão da vida e tudo que não prestava, todos os parafusos fora do lugar e itens sobressalentes e desnecessários tivessem sido jogados fora. Mas os arranhões e amassadinhos do caminho eu preferi deixar, pra me lembrar todos os dias tudo que eu já passei e todos os erros que cometi e que me fizeram ser quem sou hoje. O ano é de 94, a quilometragem continua a rodar, mas me sinto mais nova do que nunca.

Camila Senna.

 

 

 

 

 

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